Agricultura Ecológica: Uma Conversa com Fukuoka, Jackson e Mollison.

Hoje trazemos aqui, uma publicação que resulta de uma entrevista tripla, ou melhor, um bate-bola entre os notáveis Masanobu Fukuoka, Wes Jackson e Bill Mollison. O registro ocorreu em meio à realização da 2° Conferência Internacional de Permacultura, realizada nos Estados Unidos da América em 1987.

 “Você pode pensar que nós três estamos no cavalo de Dom Quixote. O cavalo está realmente correndo em direção ao desastre, mas mesmo estando no mesmo cavalo parece que estamos dizendo coisas diferentes. Wes Jackson está tentando parar os pés do cavalo. Bill Mollison está tentando virar a cabeça do cavalo. (Risos) Eu estou apenas pendurado na cauda do cavalo!”

Masanobu Fukuoka

                                          Foto: George Olsen.

Abaixo reproduzimos na integra o diálogo ocorrido nesse encontro inusitado, a publicação original se encontra disponível em:

https://www.motherearthnews.com/homesteading-and-livestock/ecological-farming-zmaz87mazgoe

Agricultura Ecológica: Uma Conversa com Fukuoka, Jackson e Mollison.

Uma conversa com três agricultores-pesquisadores e líderes do movimento global por uma agricultura natural e permanente, falando sobre as sementes do nosso futuro e agricultura ecológica.


Por MOTHER EARTH NEWS. Março / Abril de 1987.  Tradução: Paulo Eduardo Rolim Campos, 2019.

Em agosto passado, três líderes do movimento global por uma agricultura natural e permanente (também chamada permacultura) se reuniram no Evergreen State College, em Olympia, Washington, para a segunda Conferência Internacional de Permacultura. O MOTHER EARTH NEWS também esteve lá, e obteve a única entrevista em três vias com os homens que nossos colunistas do Seasons of the Garden, rotularam como a “Santíssima Trindade” da agricultura ecológica.

A seguir temos de maneira editada, uma discursão cara-a-cara entre homens que estão assumindo papéis-chave na definição do futuro do nosso planeta, mas, primeiro deixe que Pat Stone editor-assistente que conduziu a entrevista, preencha você com algumas informações sobre os três sujeitos:

O australiano Bill Mollison criou o conceito de permacultura na agricultura ecológica. Com uma barba grisalha e voz grossa, Bill tem um seco senso de humor, um temperamento mal-humorado e uma absoluta dedicação à sua causa. Antes de seu discurso na conferência, se apresentou como “um grande contador de histórias que já motivou milhares de pessoas a entrar em ação”. Mollison ocupou todos os postos trabalho, de marinheiro a pesquisador na Tanzânia, a professor sênior de psicologia ambiental, ele deixou essa segura posição universitária dois anos antes da aposentadoria, para abrir os caminhos para a permacultura.

Para Mollison, a agricultura permanente significa sistemas sustentáveis cuidadosamente projetados, nos quais, o arranjo, a organização e as interações de plantas e animais são os fatores centrais. Plantas perenes, especialmente árvores, desempenham um grande papel em suas paisagens multiespecíficas. Um sistema permacultural, exige muito planejamento e um bom trabalho para se configurar, mas em seguida, deve – se quase auto executar.

Wes Jackson pesquisa misturas de culturas perenes em Salina, Kansas/EUA. Um imponente cowboy do centro-oeste com mãos largas e um sorriso pronto, Jackson combina uma natureza calorosa, humor doméstico e estudos científicos impecáveis ​​(ele é PhD em genética). Um exemplo de seus temas favoritos para proferir palestra é,  “Policultura perene de herbáceas produtoras de grãos: uma contribuição para a o fim da possibilidade do holocausto nuclear  e a solução de todos os problemas conjugais”.

Nos 200 acres do Land Institut, Wes e sua equipe de pesquisa estão trabalhando para criar uma mistura de girassol, centeio e outras plantas perenes que poderiam produzir uma colheita anual contínua de sementes nas pradarias do meio-oeste americano. Esse sistema de alto rendimento patrocinaria sua própria fertilidade, teria problemas mínimos com pragas e ervas daninha e não necessitaria de preparo anual erosivo. O sistema alimentar autossustentável seria projetado por humanos, mas seguiria os princípios da natureza. “Não é que os humanos não aprendam mais rápido que a natureza”, diz Jackson. “É só que a natureza está nisso há muito mais tempo.”

E Masanobu Fukuoka, seria difícil entender completamente esse homem fascinante. O oriental com seu curto quimono é essencialmente um monge budista que escolheu o caminho da agricultura. Ele não fala inglês, mas sua gentileza se comunica de relance. (Seus olhos cintilantes revelam que um humilde filósofo também divide o lugar com um sujeito brincalhão)

Fukuoka era cientista agrícola, e após uma grave doença teve um “lampejo de percepção” de que a natureza era perfeita e que o conhecimento humano não tinha sentido. Ele partiu para provar essas ideias através da agricultura e tem cultivado arroz, cevada e frutas cítricas em uma pequena fazenda comercial desde a segunda guerra mundial. Fukuoka defende o que ele chama de “não fazer nada” na agricultura, ele não usa plantio direto, fertilizante, nem capina e não usa pesticida há quatro décadas, e ainda alcança rendimento de grãos tão alto quanto os agricultores japoneses convencionais. Um exemplo de suas técnicas, ele envolve suas sementes de cevada e trevo em bolas de barro e lança-as em sua lavoura de arroz madura. Mais tarde, ele espalha a palha do arroz sobre a cevada que brota. A cobertura permanente com palha e trevo, promove a fertilidade do solo e abafam as ervas daninha.

Hoje, Fukuoka-san (san é uma respeitosa e tradicional forma japonesa de se dirigir a um senhor, adicionando após o seu nome) desfruta de seu estilo de vida e seus métodos de cultivo. Tendo doado a maior parte de seu patrimônio a família, vive sozinho em uma pequena cabana e possui três conjuntos de roupas.

Um australiano, um norte – americano do Kansas e um japonês, esses três apresentam uma visão ampla das maneiras pelas quais uma agricultura verdadeiramente natural poderia ajudar a salvar nosso solo e nosso planeta.

Talvez a melhor maneira de começar seja simplesmente perguntando a cada um de vocês sobre o seu propósito de vida e trabalho.

MOLLISON: Eu sou uma pessoa muito simples, tudo que eu quero fazer é regenerar a terra. É nisso que eu trabalho o tempo todo.

JACKSON: Para mim, o objetivo é salvar os solos, deixar de introduzir esses produtos químicos no meio ambiente que fazem com que promovem a degeneração de nossas células, sair da matriz de combustível fóssil, para operar a agricultura sob a luz do sol.

FUKUOKA: Parte do meu propósito é criar uma sociedade onde ninguém tenha que fazer nada.

Perdão, mas eu insisto?

FUKUOKA: (enquanto responde desenha um homem dormindo debaixo de uma árvore): Esse é um fazendeiro natural, dormindo em pleno dia de sol. Ele não faz quase nenhum trabalho, nem adubação, nem aragem e nem capina. Você poderia dizer que eu tenho dormido por 40 anos, mas meus rendimentos são tão altos, tanto quanto aqueles dos fazendeiros que trabalham o tempo todo.

Fukuoka-san, você poderia explicar brevemente a diferença entre o seu método de cultivo natural e a agricultura convencional?

FUKUOKA: A agricultura natural e a científica são diametralmente opostas. Procura se aproximar mais da natureza e a outra de se afastar. A pesquisa científica discrimina, decompõe e analisa, portanto, por definição, o conhecimento científico é fragmentado e incompleto.

Mas a natureza é um todo indivisível. Não há ponto de partida ou destino, apenas um fluxo sem fim. Para aprender com a natureza, você deve livrar-se de seus preconceitos, suas análises, suas distinções intelectuais. Torne-se um homem tolo, deixe a sua cabeça vazia, não pense em nada, seja como o bebê que vê tudo holisticamente de uma vez só.  Então você pode entender a natureza e instintivamente entender o que precisa ser feito, e o que não deve ser feito, para trabalhar em harmonia com seus processos.

Porém há um problema, para fazer à agricultura natural a pessoa deve conhecer o que é a natureza inalterada. As pessoas entendem mal a natureza, observando natureza artificial criada pelas pessoas. Você não pode ser um fazendeiro natural abandonando a natureza depois de tê-la alterada. Em vez disso, você deve selecionar cuidadosamente a semente e determinar quando, onde e como cultivá-la, mas somente depois de examinar a terra e a natureza real de uma área.

Bill, você acha que o tipo de cultivo natural de Fukuoka está incluído na permacultura?

MOLLISON: Não somente incluída, como é bem-vinda. Na verdade, eu tinha uma mentalidade contra toda a agricultura de grãos, então eu não incluí nenhuma referência a isso em meu primeiro livro, Permacultura Um, até que Fukuoka escreveu A Revolução de Uma Palha.  Agora sei que as abordagens desses dois cavalheiros se encaixam naturalmente na estrutura da permacultura. De fato, Fukuoka-san e eu, somos basicamente a mesma pessoa.

Todos vocês três acreditam em uma agricultura ambientalmente saudável que usa uma mistura integrada de plantas e plantio direto, mas sinto que existem algumas diferenças reais entre vocês.

MOLLISON: Eu acho que somos três aspectos de um simples esforço para fazer a mesma coisa. Fukuoka-san trabalha na produção de grãos sem plantio. Wes está preocupado com a revitalização das pradarias e desenvolver grãos perenes de bom rendimento. Eu e muitos outros que estão comigo, trabalhamos com terra, plantas comestíveis, saúde e também com integração financeira para apoiar empresas ambientalmente saudáveis.

JACKSON: Eu diria que Fukuoka-san trabalha muito com plantas anuais herbáceas. Ele está tentando tirar proveito das integridades naturais das culturas atuais e tradicionais. Mollison enfatiza o design da paisagem, paisagismo comestível e assim por diante. No Land Institute, estamos tentando reunir ecossistemas herbáceos perenes e sustentáveis para os agricultores.

Também estamos tentando determinar quais princípios biológicos podem estar em ação. Essa é uma das contribuições mais importantes de nossos esforços, descobrir os princípios da agricultura ecossistêmica. Esses princípios seriam aplicáveis ​​no Chade, na União Soviética, no Japão ou em qualquer outro lugar.

Estamos tentando nos tornar ecossistemologistas que usam uma abordagem dialética de todo o sistema, não uma abordagem cartesiana de uma parte sobre o todo. E deixe-me dizer-lhe que é difícil. Para nos ajudar a manter essa abordagem interconectada, estamos criando uma conexão natural e física entre nossos pesquisadores. Cientistas do solo, técnicos agrícolas, ecologistas, entomologistas e fitopatologitas, usarão as mesmas instalações de laboratório e todos terão seus nomes em qualquer documento produzido. Esperamos que o ambiente compartilhado ajude a ditar um padrão de pensamento e comportamento holístico e ecossistêmico.

FUKUOKA: Não há tempo! Não há tempo! Se você adotar essa abordagem passo a passo, no momento em que obtiver seus resultados, será tarde demais. Além disso, Sr. Jackson você acha que realmente pode controlar tudo neste centro de pesquisa? Cada departamento irá se desenvolver de forma centrífuga, será muito difícil de alcançar unidade.

Existe outro caminho. Não faça sua pesquisa perguntando: E se tentássemos isso? Que tal se tentássemos isso? Em vez disso, vá à direção oposta e pergunte: E se não fizermos isso? E se não fizermos isso? Após 30 anos de tais esforços, consegui reduzir meu próprio trabalho, a essencialmente plantar sementes e espalhar palha, apenas.

JACKSON: Esta é uma diferença saudável de opinião sobre o papel da ciência. Nosso conhecimento científico atual veio às custas de florestas, solos e combustível. Considerar esse conhecimento como condenável simplesmente porque foi acumulado a um custo de muito capital ecológico é tratá-lo da mesma maneira que tratamos essas florestas e solos. Nós não podemos fazer isso agora, precisamos transformar esse conhecimento para trabalhar em direção à regeneração da Terra, ela tem o potencial de ser regenerada, assim como se faz em qualquer paisagem menor.

FUKUOKA: Sr. Jackson, quão bem você acha que a humanidade conhece a natureza?

JACKSON: Bem, claro, nós não conhecemos a natureza muito bem. Mas desde o início da agricultura, tivemos que descobrir como trabalhar com a natureza o máximo possível. Por bem, acho que devemos perguntar: a ciência é uma força intrinsecamente alienante na sociedade? Essa questão deve estar sempre diante de nós, porque se somos cientistas em primeiro lugar e seres humanos em segundo lugar, não podemos nos dar ao luxo de fazer essa pergunta. Mas se somos seres humanos em primeiro lugar e os cientistas em segundo lugar, não podemos nos dar ao luxo de não fazer essa pergunta.

Acho que talvez você esteja reagindo à personalidade atual da ciência. Não acredito que a ciência tenha que nos alienar da natureza. Vamos esperar que a ciência futura tenha alta precisão, juntamente com uma maior medida de humildade sobre suas próprias imperfeições e os mistérios da natureza.

FUKUOKA: A confusão começou quando os humanos comeram o Fruto do Conhecimento. Adão e Eva foram jogados fora do Jardim do Éden. A única maneira de voltar é jogar fora o conhecimento! Apenas se torne tolo como um pássaro ou um bebê.

Eu entendo a abordagem científica do Sr. Jackson. Eu costumava ter a mesma visão quando era cientista. Você pode pensar em nós três como estando no cavalo de Dom Quixote. Parece que estamos dizendo coisas diferentes, mas estamos realmente no mesmo cavalo. O cavalo está correndo em direção ao desastre, Wes Jackson está tentando parar os pés do cavalo, Bill Mollison está tentando virar a cabeça do cavalo, (Risos) e eu estou apenas pendurado na cauda do cavalo!

Seria difícil ignorar a insinuação de desgraça colorindo essa conversa. Quão mal vocês três sentem a nossa situação atual?

MOLLISON: A agricultura moderna é a atividade mais destrutiva na face da terra. Se vamos melhorar as coisas, temos que fazê-lo em breve ou não. Estou absolutamente convencido disso. Eu viajo muito, e tenho visto sinais do colapso de grandes sistemas em todos os lugares.

JACKSON: Os altos rendimentos da agricultura criam uma ilusão de sucesso, mas é apenas o resultado da transferência de carbono fóssil para o carbono dos produtos agrícolas. Se houvesse uma contabilidade completa, teríamos que dizer que a agricultura industrial moderna é a forma de agricultura menos eficiente e mais devastadora que foi inventada, ela reduz a própria base de nossa existência.

Para mim, a agricultura é o problema ambiental número um, além da possibilidade de holocausto nuclear. Ao todo, estamos enfrentando a situação mais perigosa em que a raça humana já se encontrou.

FUKUOKA: O alimento produzido nos EUA não é produzido pelo solo, mas pelo petróleo. Herbicidas, pesticidas, fertilizantes, óleo, óleo, óleo. Se tal agricultura química continuar, esta terra será destruída muito mais cedo do que você espera.

Um dia as pessoas da moda dirão, “Você notou que fulano está comendo calendário?”   

MOLLISON: Vou me concentrar apenas nas reações catalíticas destrutivas que estamos causando na atmosfera. Produtos químicos clorados agora parecem estar destruindo a camada de ozônio sobre a Antártida, criando uma janela ultravioleta maior que a América, que esterilizar a terra se ela se alargar.

Além disso, há o problema de acúmulo de CO². Mesmo que paremos agora, a ciência prevê que com os atuais níveis de CO², derreteremos as calotas polares parcialmente, pelo menos. Isso já começou. Então teremos que evacuar as regiões litorâneas do globo. Isso é devido ao uso excessivo de combustíveis fósseis, de energia solar gerada no passado e à destruição da matéria verde, que absorve CO².

FUKUOKA: Se perdermos apenas entre 3% e 7% a mais do verde da terra, não conseguiremos. Haverá uma escassez crítica de oxigênio que afetará os sentidos e o modo de pensar dos seres humanos.

MOLLISON: Os déficits de oxigênio são realmente críticos agora na Grécia. Você verá uma séria falta de oxigênio lá em breve.

JACKSON: Eu duvido. Eu não acho que a falta de oxigênio seja o problema.

MOLLISON: Ele acha que é o excedente de carbono.

JACKSON: Eu acho que o desmatamento deve parar, mas a perda de oxigênio devido ao desmatamento é um problema minúsculo comparado ao aumento da queima de combustíveis fósseis e à perda acelerada de carbono devido à erosão, etc. Mas concordamos que o local está em apuros. Nós poderíamos sentar por aqui e analisar os detalhes e gastar a maior parte do nosso tempo declarando nossas suposições, mas o importante é que concordamos que o mais positivo a fazer é tentar aumentar a vegetação e manter o terreno coberto durante o ano todo, o quanto possível.

Como vocês três estão progredindo com seus esforços?

MOLLISON: Eu estou trabalhando com pessoas que estão indo para o próximo passo além do projeto de propriedade, na economia. Estamos usando investimento ético e financiamento inovador para viabilizar uma série de negócios em pequenas comunidades. Nosso objetivo é criar policulturas para pessoas que tenham como objetivo criar e preservar sistemas estáveis em permacultura. Em partes da Austrália, já conseguimos isso.

Também estamos desenvolvendo mais professores de permacultura. E estamos tentando preservar essas áreas ricas em espécies que ainda existem. Por exemplo, em breve compraremos uma área de floresta tropical ameaçada, estabelecendo uma unidade de conservação. Você até pode revender sua parte, mas você simplesmente não pode mudar a floresta tropical. Às vezes compramos áreas danificadas, recuperamos e depois as preservamos.

FUKUOKA: Não há agricultura natural no Japão. Na China eles começaram uma fazenda natural de 1 milhão de hectares. Há alguma agricultura natural acontecendo na Índia e nos Estados Unidos. Ainda não começou na África, mas sinto um forte interesse do povo.

JACKSON: Um dos problemas básicos em nossas tentativas de aumentar os rendimentos perenes é que, em geral, a própria natureza de uma planta perene resiste a tais tentativas. Enquanto num ano coloca suas energias na produção de sementes para garantir as gerações futuras, no outro negligencia suas sementes e coloca a maior parte de suas energias em um sistema de raízes sobreviventes. Então a primeira pergunta básica que tivemos que fazer é: a perenização e o alto rendimento podem caminhar juntos?

Estamos obtendo resultados bastante encorajadores que agora posso dizer que a resposta é sim. Estou ansioso para o dia em que as pessoas da moda em torno de Berkeley ou Cambridge estiverem em um restaurante de comida natural disserem: “Você notou que fulano ainda está comendo calendários?”

Sério, eu acredito firmemente que se conseguirmos altos rendimentos de uma lavoura perene por três anos consecutivos, a perenização terá um grande impacto na agricultura. Mas eu acho que isso vai levar de 50 a 100 anos.

O que mais precisa ser feito?

MOLLISON: Para escapar do desastre, precisamos abrir uma discussão em larga escala sobre a definição do futuro, da mesma forma como os suecos discutem questões políticas na Televisão lá na Suécia. Tivemos recentemente uma série de televisão em cinco partes na Austrália chamada “Heartlands”, que mostrou exemplos de ação positiva que os indivíduos estão realizando, e teve o maior público de audiência da história do país.

Se em breve não levarmos essa discussão para mídia para em uma base global, pode ser tarde demais. Talvez devêssemos tomar conta das estações de rádio e televisão locais e apresentar casos e casos de ação ao povo dos Estados Unidos e a todos os outros países. Contatar bons cientistas que falem sobre isso. Acessar pessoas que tenham sugestões sensatas sobre como reverter às coisas. Minha própria paixão é localizar pequenos exemplos autossuficientes em todos os lugares, para nos permitir ensinar continuamente que a permacultura funciona em Fiji, na América, em Sydney, porque temos pessoas em todos os lugares fazendo com que isso funcione.

Em primeiro lugar, devemos canalizar os principais fundos de investimento para a terra, dizendo a muitas pessoas como fazer, e que estas digam  para muitas outras pessoas. De fato, a autoconfiança da horticultura em seu quintal é a maior cura para o problema da agricultura.

JACKSON: Eu tenho dificuldade em falar pelo resto do mundo, porque não estou por perto. Até mesmo do condado aqui próximo, por que eu também nunca estive lá, Bill. Eu nunca estive na África ou na Ásia

O que eu posso falar é da agricultura americana, que é provavelmente a maior responsabilidade agrícola do mundo. Infelizmente, também se tornou o padrão idealizado em grande parte do mundo. O problema com a agricultura americana é que ela é supercapitalizada. Os tratores de tração nas quatro rodas custam US $ 120.000, os implementos custam US $ 80.000. Estudos mostram agora que, se um agricultor médio tem US $ 10.000 para gastar, é mais rentável contratar uma pessoa do que comprar mais equipamentos.

O que precisamos para uma agricultura biológica resiliente é ter muitas pessoas na terra, uma alta proporção de olhos por hectare. Isso é um bom sinal, e não seria voltar para trás.

MOLLISON: Silvicultores cuidando de plantações de árvores. É isso que ele está falando, silvicultores.

JACKSON: Não, nos 20 melhores cultivos existem apenas duas árvores – banana e coco, números 19 e 20. Quando você está realmente falando sério sobre comer, você busca grãos e legumes. (Risos) Considerando o forte ponto de vista de Bill, acho que essa afirmação foi corajosa da minha parte!

Estou dizendo que precisamos cada vez mais de pequenos agricultores para tornar o trabalho da agricultura sustentável. Você precisa manter seus sistemas pequenos o suficiente para que você possa continuar observando e aprendendo. Acho que a presença aqui de pequenos agricultores, como Jefferson tinha em mente, não é nostalgia, mas é uma necessidade prática. Conseguir isso é o desafio para o nosso tempo.

Eu concordo com Bill que a primeira coisa que temos que fazer é encontrar os bons exemplos que já existem em todo o país e torná-los altamente visíveis. Eu não sei se devemos espalhar a palavra através de um boletim ou no boca a boca ou o quê, eu não sou tão fã como Bill é, da ideia de usar a televisão. Mas há algumas pessoas que vêm fazendo agricultura sustentável há anos, e somente Deus tem observado.

Você sabe que o problema da agricultura não é insuperável, né, este é fundamentalmente um problema religioso. A terra não é um presente de Deus, nós não possuímos isso, o que temos é o direito de usar a terra. Não temos o direito de danificá-la. Em vez disso, temos que obedecer ao que é efetivamente um mandamento: devemos cuidar do Jardim de Deus.

Fukuoka-san?

FUKUOKA: Mesmo se praticarmos a agricultura natural, mesmo sendo algo que temos que fazer, tenho a sensação de que ainda será tarde demais. Se não podemos mudar o caminho da agricultura agora, será tarde demais.

Vocês três acham de verdade que podemos mudar as coisas? Ou temos que enfrentar um Armagedom agrícola?

MOLLISON: Eu concordo com o Sr. Fukuoka que não há muito tempo. No entanto, se ocorrer o desastre, embora afete a agricultura e possa ter sido causado pela agricultura, isso não acontecerá em termos de agricultura.

Não vamos lavar todo o solo antes de finalmente desequilibrarmos a atmosfera.

E eu não tenho nenhum grande otimismo de que vamos sobreviver. Não muito tempo atrás, pedimos a cerca de 900 (novecentos) cientistas australianos que nos ajudassem a convocar todos os australianos para se reunirem e discutirem maneiras de mudar o futuro ambiental, 700 (setecentos) deles não ajudou, eles disseram que já era tarde demais.

O que eu tenho é a determinação de dar a qualquer um a chance de ir, mas todos nós temos que começar a trabalhar agora. O tempo para coletar evidências já acabou só há tempo para ação. Não há mais espectadores, apenas jogadores.

JACKSON: Bem, acho que as coisas vão piorar antes de começarmos a fazer uma mudança significativa, não precisamos nos perguntar sobre isso, as coisas vão piorar.

Você tem que perceber que a escala do problema é muito mais ampla do que pensávamos, a agricultura não é um satélite que precisa ser consertado. Toda a nossa sociedade terá que se afastar da energia vertical, isto é, energia de combustível fóssil, a energia antiga, para coletar energia horizontal, energia contemporânea, como energia eólica, hidroeletricidade, etc.

Mas nós podemos fazer melhor. Eu estou certamente esperançoso.

FUKUOKA: Tem uma última chance. No sumô, há um jeito de vencer no último momento. Quando um grande lutador empurra um lutador para trás, para trás, para trás, no momento em que o garotinho está de volta ao final do ringue, ele usa o peso e a força que vem sobre ele e vira o grandalhão por cima do ombro. O grande lutador é jogado para fora do ringue e o pequeno vence.

Nossos líderes mundiais devem ter uma grande coragem e serem lutadores de sumô. Eles devem levar os bombardeiros e os mísseis carregados com implementos de guerra e jogar as bombas para longe. Em seguida, estocar sementes de todos os diferentes tipos de vegetais, de árvores frutíferas, de grãos. Carregarem os mísseis com as sementes e atirarem, espalhando sementes por toda a terra. Espalhando s sobre os desertos, cobrindo os gramados e as pastagens artificiais.

No primeiro ano, depois que a chuva chegar, tudo surgirá aqui e ali – pode parecer uma bagunça. No segundo ano, a natureza começará a lhe dizer quais plantas crescerão bem e onde. No terceiro ano, microrganismos, minhocas e pequenos animais irão aumentar e começar a enriquecer o solo.

Então, quando houver comida para as pessoas em todos os lugares, elas não estarão em um estado de espírito tão confuso e as atitudes das pessoas vão mudar. Você recuperará a terra, consertará a crise ecológica, consertará a crise econômica e dará às pessoas a chance de encontrar a felicidade.

E então pode haver paz.

Wes Jackson em Policulturas Perenes

Depois de analisar o crescimento de cerca de 4.300 variedades de todo o mundo, selecionamos seis herbáceas perenes para manipular geneticamente e incluir em nossos experimentos ecológicos.

Uma espécie é a grama gama oriental, um parente do milho que tem três vezes a proteína e 1,8 vezes a metionina, também fixa pequenas quantidades de nitrogênio. É uma “grama de sorvete” para vacas e é altamente nutritiva para os humanos também. No entanto, é de baixo rendimento. Porém, no norte do condado vizinho, um mutante foi coletado, e está produzindo de duas a três vezes o rendimento inicial. Uma vez desenvolvido, isso poderia substituir o milho, o trigo e a soja em encostas inclinadas em países com alta erosão.

Então há o sorgo, um perene útil que não é resistente ao inverno. Cruzamos o sorgo com a grama Johnson até que finalmente conseguimos uma mistura de 1.500 plantas. Cerca de 455 deles sobreviveram ao inverno passado, tornando-se a primeira herbácea perene resistente ao inverno a ser produzida por humanos de propósito.

Nossas parcelas selvagens de Senna renderam 830 kg por hectare em 1982 e 900 kg por hectare em 1985. Isso é importante porque indica que uma planta de cultivo perene pode continuar produzindo um bom rendimento ano após ano.

Fizemos um experimento de consorcio com flores de feixe de Illinois, que fixa nitrogênio, e senna selvagem, o que não acontece. No primeiro ano, as duas espécies juntas produziram o mesmo que nas monoculturas. No terceiro ano, porém, produziu quase o dobro do rendimento da monocultura.

Também somos encorajados pelos resultados do Maximillian, nosso girassol perene. É alelopatia, ou seja, suas raízes exsudam uma substância química que age como um herbicida. Há também o centeio selvagem gigante, que cresce nos lagos arenosos da Sibéria, ele se apresenta como uma boa promessa de alto rendimento. Eu vou enviar fotos deles em janeiro, vai ficar pensando que é primavera na Sibéria.

Bill Mollison sobre Permacultura

A permacultura é uma agricultura projetada e um dos aspectos mais importantes do bom design é a padronização.

Aqui (Figura 1 no quadro abaixo) é um lote quadrado com uma estrada particularmente movimentada nos fundos. Tem barulho nos fundos, pouca água, ventos quentes de verão do sudeste e uma ocasional brisa fresca de verão do sudoeste. No inverno, ventos frios vêm do nordeste. O que você pode fazer para tornar atraente esta casa e seu jardim?

Construa uma parede curva coberta de terra e plantas que se eleva de oito polegadas no início a 12 pés no seu pico em torno de uma casa e lagoa (ver Figura 2 no quadro abaixo). A parede proporciona privacidade, bloqueia o ruído e protege dos ventos quentes e frios, enquanto sua abertura canaliza a brisa fresca do verão em direção a casa. O lago fornece água e reflete o aquecimento do sol de inverno em direção a casa. Este parcial padrão espiral resolve assim todos os problemas.

Suponha que em um local diferente, você queira construir um lago de um acre para criar trutas e cultivar mirtilos. Como você pode obter mais trutas e mirtilos?

Como a truta vive e se reproduz ao longo da borda do lago e os mirtilos plantados ao lado do lago terão mais água, quanto mais borda você tiver, mais produção você terá. Portanto, maximize a borda estendendo o padrão do primeiro exemplo e fazendo um lago em espiral. (ver Figura 3 no quadro abaixo).

Esse mesmo padrão é um bom modelo para um pequeno herbário. Se você levantá-lo no centro (ver Figura 4 no quadro abaixo), então a coisa toda é um terraço escalonado, você pode ter 43 pés lineares de espaço para ervas, em um espaço circular de apenas dois metros e meio com apenas um aspersor no topo!

Tais projetos podem aumentar tremendamente a produtividade de um sistema. De fato, quanto mais eu vejo e trabalho a permacultura, mais eu acredito que não há limites biológicos para produzir. Existem apenas limites de design.

Quadro Bill Mollison

Masanobu Fukuoka em Agricultura Natural

Eu disperso sementes de centeio e cevada em campos separados no outono, enquanto o arroz nessas áreas ainda está de pé. Algumas semanas depois, eu colho o arroz e, em seguida, espalho sua palha sobre os campos como palha. Os dois grãos de inverno geralmente são cortados por volta de 20 de maio. No entanto, duas semanas antes de essas plantas amadurecerem completamente, eu disperso sementes de arroz diretamente sobre elas. Depois que o centeio e a cevada foram colhidos e debulhados, espalho sua palha sobre o campo para proteger as mudas de arroz, enriquecer o solo e abafar as ervas daninhas. Eu também cultivo trevo branco nesses mesmos campos.

Quanto aos citros, eu cultivo várias espécies nas encostas próximas a minha casa. Primeiro, eu tive que recondicionar o solo de argila vermelha nas encostas, plantando o trevo como cobertura do solo e permitindo que as ervas daninhas retornassem. Eu também adicionei alguns vegetais resistentes, como o rabanete daikon japonês, e permiti que os predadores naturais cuidassem das pragas de insetos.

Como resultado dessa cobertura espessa de ervas daninhas / trevo, nos últimos 30 anos, a camada superficial do solo do pomar tornou-se solta, escura e rica em minhocas e matéria orgânica. No meu pomar há agora pinheiros e cedros, algumas pereiras, caqui, nêspera, cerejas japonesas, acácias fixadoras de nitrogênio e muitas outras variedades nativas que crescem entre as árvores cítricas.

Eu cultivo vegetais por toda a montanha, de maneira semi – selvagem  entre as ervas daninhas. Só no meu pomar crescem bardanas, repolho, tomates, cenouras, mostarda, feijões, nabos e muitos outros tipos de ervas e vegetais.

Para plantar minhas hortaliças, simplesmente cortei uma faixa abaixo das ervas daninhas e coloquei as sementes. Não há necessidade de cobrir com terra, pois deito as plantas cortadas sobre elas como uma cobertura natural. Normalmente as ervas daninhas ressurgem, e têm de ser recortadas duas ou três vezes para facilitar o crescimento inicial das mudas, mas às vezes apenas uma vez é suficiente. Você pode produzir onde há um crescimento variado e vigoroso de ervas daninhas, mas você precisa se familiarizar com o ciclo anual das gramíneas nativas e das ervas daninhas, e então perceber quais tipos de vegetais combinam melhor com elas.

Sete argumentos para a agricultura natural

  1. Desde que a humanidade se envolveu pela primeira vez com a agricultura, eliminamos quase metade da cobertura vegetal e do solo da Terra.
  2. A agricultura americana causa a erosão de nove toneladas de solo por acre por ano, o equivalente a uma polegada a cada 16 anos.
  3. A agricultura americana utiliza 40 milhões de toneladas de fertilizantes comerciais por ano, a um custo de mais de um quinto do fornecimento anual de gás natural da nossa nação.
  4. Mais de 80% da água da nossa nação é consumida em fazendas e fazendas.
  5. A agricultura é agora o nosso principal poluidor de rios e águas subterrâneas.
  6. Desde 1942 a perda de colheitas devido a pragas de insetos duplicou, o uso de inseticidas aumentou dez vezes.
  7. Globalmente, a agricultura tem usado mais petróleo que a indústria.

 

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Um comentário sobre “Agricultura Ecológica: Uma Conversa com Fukuoka, Jackson e Mollison.

  1. Paulo Campos obrigado pelo rico relato traduzido!!
    Esse encontro trás evidências valiosas e que precisam de atitudes urgentes. Sigamos na luta por uma agricultura mais integrativa, assimilando o conhecimento dessa Santíssima Trindade!

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